Porque toda vida merece uma história




Muito prazer,

Minha foto
Um moço me disse que eu devia me apresentar, me desenhar para quem quiser me ver. Assim eu teria começo, meio e fim. Pobre moço... Quando souber quem sou, já não sou eu. Muito prazer, Copelia.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O moço tosco - segunda parte

Dezoito minutos. E a porta abriu. O bule no fogão já fervia pela segunda vez. O pó descansando no paninho escuro em cone. O estalar da madeira debaixo dos pés vinha crescendo. Não contei quantos estalidos foram, mas abriram um rombo no meu peito antes de o moço despontar debaixo do alisar... Terminei! disse, num sorriso glorioso de tarefa cumprida. Não cheirava a gengibre, nem a nada. Mas o moço estava limpo e completo. Era hora do café. Apontei a pia do tanque lá fora e ele caminhou até o átrio, pendurou a toalha usada e voltou. Chegou quando o café já escorria pra dentro da garrafa. Cheirava bem o danado do café. O moço virou-se pra mesa e disse “vou pegar o pano”. Deu as costas e buscou um trapinho xadrez branco e azul dentro da sacola de algodão que trouxera. Era pouco pano para minha mesa larga, mas ele abriu assim mesmo. Era amassado e trazia o cheiro de várias refeições feitas. Concordei e busquei as canecas. Na parte mais alta do armário. Nos dois segundos antes de alongar o braço esquerdo até a última prateleira perguntei por que deixava as canecas tão altas, por que não troquei o vestido curto por outro mais composto, por que ele não para de olhar para as pontas dos meus dedos... A pontinha encostou numa, depois noutra e elas fugiam de mim... queriam escapar e me deixar tonta, transtornada por não alcançar duas canecas cotidianas. Não desisti, estiquei ainda mais o corpo até que o fim da cena desmontou sobre mim!! A barra do vestidinho sem vergonha revelou tudo o que não devia escapar. A brancura da perna descuidada, a curva mal traçada da coxa, a umidade do suor rançoso. O moço não perdeu a graça que escorreu pelo meu corpo. Deixa que eu pego, você não alcança, soltou essa numa firmeza de dar medo. Afastei e dei lugar ao moço tosco sem cheiro e sem pudor que veio ocupar a lacuna da minha tarde. Eram duas canecas brancas de cerâmica, pintadas a mão, com desenhos em vermelho e azul... azul turquesa, vermelho sangue.
O açúcar debaixo da pia, os biscoitos no pote de vidro vermelho, em cima da geladeira, tudo foi parar sobre a toalha xadrez esticada na mesa de madeira. O açucareiro, ah! O meu açucareiro! Ele tinha duas alças charmosas, encantadoras. Era gordinho, de porcelana, sem desenho sem nada. Foi comprado em feirinha de coisas antigas. Mas a colherinha, essa era sim única. Não tinha bordado nem riqueza. Não era de prata, nem ouro. Metal corriqueiro. Mas era quadrada na ponta. Herança da minha avó.  A pobrezinha não me deixou nada, só a colherinha que ela me emprestava quando eu era criança e vivia brincando de casinha... A colherinha declarada em testamento agora mergulhava na caneca do moço. Senti doer o coração. Não! Não pode jogar a colher de açúcar no café! Ela não é de ninguém!! Ela é quadrada, tem que ficar dentro do açucareiro!... Mas ele não ouviu nada porque eu não falei. Só suspirei fundo e repeti o gesto. Peguei a colher cheia de açúcar e mergulhei na minha caneca. Ele sorriu e bebeu tudinho de uma vez. Fechou os olhos demoradamente. Abriu a boca redonda e disse “delícia!” Biscoitos... quem queria biscoitos se havia café impregnado na garganta....?
Eu, que sabia tudo de perguntar, fiquei seca. Mas ainda tinha saliva pra duas ou três. De onde vem...? perguntei. Do outro lado do rio. E está indo aonde...?  sussurrei. Pro outro lado da montanha. Olhei pela janela e consegui enquadrar o monte verdinho, surrado, quase indo embora pelo restinho de sol do fim do dia. Senti o calor aumentar, de certo era o café que esquenta a alma. Mas o corpo já não aguentava mais o tempo parando. Arrastando a minha vontade pra longe que eu nem sabia pra onde. E fui perdendo assim devagarinho até que ela se foi de vez. Fiquei pálida. Sem vontade sem nada. A vida estava ali e eu sem saber dela. Era tudo dentro de um corpo mal ajeitado e inodoro, sem proporção sem medida. Abaixei os olhos, a boca selada. Arrisquei uma última jogada. O que você faz aqui... Estou fugindo, disse o moço disfarçando. Ergui os olhos e deparei com a olhada azul. Ai, ai...Então, vá-se embora, logo, logo, porque o dia vai persegui-lo até onde a noite não couber mais em você. Ele assentiu. Levantou e andou até o tapete da sala. Pegou a sacola de algodão, o chapéu e se foi pela porta. Sentiu a ordem pesar sobre os passos. A cabeça virou para trás e quase pediu pra ficar. Mas o corpo seguiu. Desceu as escadas e abriu o portão da altura da minha cintura. Encarapuçou-se debaixo do chapéu e virou até eu avistar apenas a pontinha da camisa larga flutuando na curvinha da esquina...
O moço foi. E levou tudo junto. O cheiro de gengibre, a caneca da ultima prateleira, o brilho do açucareiro formoso, a garantia da colherinha do testamento, a toalha xadrez esticada. Fechei a porta e a noite era definitiva. Voltei à poltrona e acendi o abajour. O ar já era mais fresco, o suor já tinha secado. A fita do cabelo resistiu e ajeitei sobre a nuca para dar segurança. Por que não mostrei as alpínias do pergolado, por que não ofereci vinho, pão e peras... ? Por que não contei minha infância, por que não juntei minhas histórias, as boas e as más... ? Por que não entreguei as flores em sua mão e amarrei minha fita em seus braços... ?
Peguei o livro de volta. Abri na página esquecida. E lá no cantinho da orelha, escrito a lápis, fraca e garranchosa, a promessa da vontade de volta, a herança perdida, a alma preenchida. Respostas ao inquérito tardio. “Volto já”, deu fé o moço tosco. Preciso me aprontar. Plantar alpínias. Arrumar fitas. Comprar pão e vinho. Reunir histórias e sentar à poltrona todas as tardes, sem falta. Deixar a gotinha escorrer pela nuca, o suor colar nas pernas e abrir o livro novamente. A volta sempre há.

Um comentário:

  1. Eu vejo uma escritora aqui. Uma escritora, inclusive, no ponto de publicar, pois é tanta "madureza" no escrever, que esse bolo já não te mais o que assar. Tem que servir, alimentar o mundo. Estou surpreendido.

    ResponderExcluir