Porque toda vida merece uma história




Muito prazer,

Minha foto
Um moço me disse que eu devia me apresentar, me desenhar para quem quiser me ver. Assim eu teria começo, meio e fim. Pobre moço... Quando souber quem sou, já não sou eu. Muito prazer, Copelia.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A minha vida cansada

A vida anda muito pesada por isso vim me debruçar um pouco aqui. A vida está cansada, seu moço, porque ninguém lhe dá sossego. É só a pestana se erguer logo cedo que a atrapalhação começa. Todo mundo afobado, correndo e cuspindo, que o tempo acaba não dando pra vida. E é um tal da vida atrás do tempo, tropeçando, porque as pernas vão pesando, e tateando, porque os braços já são poucos...Por isso o tempo está sempre correndo da vida. O senhor já reparou nisso ?!...E quando ele chega lá na frente, dá uma espiadinha por cima dos ombros e só vê cabelos branqueados, coluna entortada e  pele encarquilhada ... ele dobra os joelhos, arria o dorso bufando e ri de tanto que a vida se perdeu sem ter tido tempo pra ser o que deveria.Ela tinha que ser branquinha de quiboa, toda aprumada de renda e laço grená, com chapéu de palha bem trançada – que é para cuidar da carreirinha de palavras que corre na caixola de lá pra cá, de cá pra lá. A gente não sabe, mas precisa mesmo de muita proteção pros pensamentos. Eles costumam não ter juízo nenhum, fogem e vão embaralhando com outros, numa promiscuidade tremenda. E pra onde todos eles vão...? Aí é que está , não vão. Ficam pervagando entre uma cabeça e outra. Atordoando quem não fica de olho e ouvido bem abertos. Por isso tem tanta gente no mundo que não sabe o que faz da vida... pudera, pensamento fugiu!!E sabe o que eu ouvi outro dia, uma moça mais ou menos assim da sua idade veio se queixando que não queria mais saber de pensar e que sabia um jeito de não pensar em nada. Negligente, ela deixou a porteira aberta, decerto. E eu fui tentar, de boba que sou. O meu pensamento começou a escarafunchar pra achar uma saída. E fui ficando desalinhada porque não sabia nem mais o que fazer com ele. Amarrei no pé da orelha pra ver se não fugia. Mas ele quis ir lá longe onde eu não enxergo o fim e não alcanço com as mãos. E eu, pensei, não sou mulher de deixar pensamento ir longe porque, seu moço, sabe como é, quando a gente deixa ir , xiiii, aí a vida se dana todinha. Acaba se atrasando e se perde do tempo.Fui num medico que disse pra eu não parar de pensar que pensar faz bem. Mandou eu deitar num sofá comprido, coberto com uma colcha alaranjada  e olhar pra uma parede onde um quadro triste não coloria nada. Depois ele pediu pra eu dizer o que eu estava pensando. Mas seu doutor!, como é que eu vou fazer isso se eu to na peleja pro pensamento não fugir?! Sabe o que ele me perguntou, seu moço, e por que é que a senhora tem medo de deixar o pensamento ir embora? Foi um deus nos acuda! Porque meu pensamento tá pesado, tão pesado que pode abrir um buraco neste chão e descer tanto que vai engolir o centro da Terra. Porque meu pensamento, seu doutor, é que nem a pedra que rola montanha, vai descendo, descendo com tudo e arrasa até ninguém mais sobrar. E vai ficar uma choradeira desgraçada, porque meu pensamento, seu doutor, já não é mais meu e por isso já não me explica mais. Eu fiquei caladinha, bem quietinha, ali deitada de barriga pra cima segurando o peito e apertando os dedos de ficar vermelho. E aquela pergunta bem feia caiu na minha cabeça. E de quem é o seu pensamento, minha senhora. Ah... eu não sabia o que dizer porque o pensamento já estava ali na bochecha inflando pra sair. Olhei pra cima e vi o teto branquinho. Lembrei do vestidinho de renda branca e do chapéu de palha bem trançada e do laço grená amarrado bem acima da barriga – o laço era apertado e eu apertava meu peito mais do que o laço. Debaixo do chapéu da minha vida branquinha, eu lembrava, o cabelo grudava na testa feito pasta. Fui ficando enfraquecida, foi me dando um calorão pela garganta e eu gritei o mais que pude. Tira esse aperto de mim, seu doutor!!! Ele se levantou de pronto da poltrona. Eu suando, tremendo, levantei do sofá comprido alaranjado e olhei pro chão. E não havia rombo nem nada. Virei pra ele e disse, seu doutor, cadê aquele pensamento pesado que saiu daqui e quebrou o chão. Não tem nada, ele disse, não tem nada mais.
Agora, seu moço, eu ando por aí, nem me importando com os trapinhos pelo corpo e me debruço aqui mesmo no seu balcão pra lhe dizer que depois que meu pensamento fugiu, minha vida não quer mais saber do tempo porque só deita pra um pernoite, de tão levinha. A minha vida, vai indo, vai indo. Bem atrás do tempo. Mas esse tempo é generoso e espera que ela chegue pra lhe dar o braço. Seu moço, como é bom o tempo esperar nossa vida chegar, não é..?”

Um comentário:

  1. O tempo não existe, mas as contas vencem.
    Os pensamentos voam, mas pousam de cansados.
    A vida ensina, mas a quem tem bom ouvido.
    Os sonhos envelhecem.
    A gente...insiste...insiste...insiste...insiste
    O relógio dita o ritmo dos sonhos, mas faceiros driblamos.
    Dai vem nossa alegria de viver

    ResponderExcluir