Porque toda vida merece uma história




Muito prazer,

Minha foto
Um moço me disse que eu devia me apresentar, me desenhar para quem quiser me ver. Assim eu teria começo, meio e fim. Pobre moço... Quando souber quem sou, já não sou eu. Muito prazer, Copelia.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O juízo, o doce e a leviana

Quando nasci ganhei uma caixinha com três presentes dentro. Meu pai me deu juízo. Minha mãe, doce caramelado. E lá de onde vim mandaram uma dose de curiosidade exagerada. O juizo tenho ainda, seu moço, mas por falta de uso constante acabei esquecendo o que fazer direito com esse embrulho. Às vezes, passo por uma esquina e largo um pouco dele para ver se volta com mais sentido. Mas esse tal juízo é desmiolado, não quer saber de voltar pra cá. E enquanto ele vai dar umas voltinhas demoradas, vem a curiosidade me tentar. E ela é tanta – e leviana - que me perco nela. Um dia veio assim, como quem não quer nada e deseja tudo, pedindo pra saber por que Santiago de Compostela é o nome de uma torta feita de amêndoa e damasco... Foi dando mão à danada que me puz a provar – sem dó - espetando entre uma e outra lasquinha que sussurrava um ruído seco. Fui pra perdição nas garfadas de uma torta batizada pelo caminho do santo. Outro dia quis saber daquele perfume de mato cortado que entrou pela garganta. Eu estava até chamando meu juízo. Mas o cheiro castanho tinha passadas largas e atravessou a ponte das tartarugas brandindo uma arma desconhecida – um olho mateiro e aguçado. E nem uma pista me deu aquele perfume para que o achasse. Então, lá veio ela, a leviana, me assombrar novamente. Cata daqui, fuça dali. Nada, nada me deu chance. Dei de ombro e pensei – um dia ainda cruzo com esse cheiro de novo, o mundo é pequeno, seu moço, o mundo é pequeno e cabe na caixinha de presente. Até que a irrefletida veio me pegar num corredor desses – sem dó me perguntou, não vai lá?? Vai, vai... Fui atrás de olhos vidrados, sem juízo algum, cheia de curiosidade e levei meu doce na mão. Aquele cheio de brilho e consistência que mamãe me deu. Aceita? ... que silêncio, seu moço. Que desconcerto. Agora? Ah, agora eu to aqui de castigo com meu juizo, sem saber o que fazer com a curiosidade – mas com um gostinho bom de doce que ainda não me escapou da boca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário